Revista Superpedido
Edição 25 - Ficções Livrescas

Cânone
Por Simone Campos 

 

Eu diria que saí à rua parecendo uma pessoa desesperada, mas não é verdade. Pessoas verdadeiramente desesperadas não calculam. Não têm tempo para calcular. Uma pessoa vestida feito uma desesperada provavelmente passou algum tempo em frente ao espelho planejando isso. Quando se sai à rua trajando jeans e camiseta – isso sim é estar desesperada. Se você vir alguém de jeans e camiseta na rua, cuidado, tenha muito medo: esta pessoa pode estar desesperada o suficiente para apenas cobrir o corpo.
Eu, no entanto, acrescentei um cachecol e um guarda-chuva, porque chovia e fazia frio.
Alguns tipos de sofrimento são canonizáveis, outros não. O mesmo vale pra felicidades.
Devia ser muito simples: um animal querido por todos, precoce e inesperadamente morto. Seria uma tristeza pura, descomplicada, fácil de sentir. Eu a gastaria aos poucos.
Não era um bebê. Não era a minha mãe. Não era o meu marido. Era um animal. E eu estou devastada. Não só pela morte, mas também porque agora eu via que não devíamos gostar tanto deles, ao contrário do que eu defendera toda a minha vida.
Minha auto-estima andava baixa como a de um ex-vegetariano ou ex-testemunha de Jeová: era forçada a reconhecer que tudo aquilo em que tanto acreditava... bem... não procedia, afinal de contas. E esperar que não tripudiassem.
Rápido. Um banheiro. Uma cabine de loja.
Esta livraria serve.
A primeira coisa que me fere é a música que está tocando. Como eu detesto versões ao vivo! Gravar o ao vivo é um hábito repulsivo e deplorável. Toda aquela sujeira.
Enquanto isso, eu tinha que fechá-lo, dobrá-lo, girá-lo no sentido horário (molhando a mão no processo), apertá-lo, colar o velcro, encaixá-lo na base, e metê-lo no plástico que o segurança me oferecia. Aquele guarda-chuva exigia muito de mim. Eu não estava à altura dele.
Logo a seguir, o corno do cara que, ao se desculpar por um esbarrão, põe a mão no meu ombro. É uma provocação direta ao meu TOC.
– Senhora, posso ajudar?
– Não... só dando uma olhada.
Agastada, desisto de chorar. Certas formas de crueldade tornam ridículo até mesmo esse ato. Meus pés, pelo menos, estão molhados.
Marco o lugar com meus pertences – o cachecol que parece uma lacraia queimada, o guarda-chuva ensacado, a bolsa – e saco um livro da prateleira mais próxima. Já que estou aqui, quero café e uma mentira bem-contada.

 

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